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A Cor denominada: estudo sobre a classificação étnico-racial

De autoria de José Luis Petruccelli, "A Cor denominada" traz informações e um estudo que permitem avaliar a forma de classificação da população por cor utilizada nas pesquisas do IBGE em 1998, quando a época, foi acrescentado um suplemento com quatro quesitos sobre a cor e a origem dos entrevistados na Pesquisa Mensal de Emprego (PME). O presente texto se propõe, a partir destas informações, a analisar as diferentes denominações da cor utilizadas pela população brasileira nas seis regiões metropolitanas da Pesquisa, em relação às categorias conceituais empregadas para esta classificação.


Petruccelli é pesquisador do IBGE e especialista em temáticas de raça, etnicidade e identidade. Abaixo, replicamos a Introdução do estudo "A Cor denominada". Baixe o texto completo no link https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv7099.pdf.



INTRODUÇÃO

Desde o levantamento das informações do primeiro recenseamento nacional, no ano de 1872 e com exceção dos Censos de 1900, 1920 e 1970, as características de cor da população vêm sendo pesquisadas no país. Durante esses quase 130 anos utilizaram-se praticamente as mesmas categorias para este relevante quesito, ainda que com pluralidade de critérios de aplicação. Contudo, se as formas de mensuração deste fenômeno já foram objeto de amplas reflexões metodológicas, o questionamento de como a percepção da “cor” de uma pessoa é organizada e denominada só têm se desenvolvido mais recentemente. Dando continuidade a esta linha de contribuições, no presente trabalho se assume que a atribuição de uma cor a um indivíduo é feita de forma relacional, não constituindo uma característica nem natural, nem inerente ao mesmo (Teixeira, 1987; Guimarães, 1995). Todavia, a percepção de determinados traços físicos só se constituem como uma cor e se revestem de significado, no interior de um contexto histórico-cultural específico. “A cor concerne de maneira primordial ao olho e ela se inscreve, assim, no universo da aparência. O das essências ... lhe escapa: ela aparece, com efeito, como um engano para a percepção, uma verdadeira ilusão” (Bonniol, 1992). O mapa cognitivo da percepção da variabilidade da cor se estrutura na conceituação socialmente determinada das aparências. Em relação a sua categorização, merece ser lembrado com destaque que já em 1835 J. M. Rugendas observava a propósito de sua viagem ao Brasil: “é menos ao sentido da vista, é menos à fisiologia que à legislação e à administração que corresponde decidir de que cor é tal ou tal indivíduo” (Rugendas, 1940).


Varias referências ao estudo da cor o apresentam como complexo e problemático, atribuindo essas dificuldades, por exemplo, ao fato de que nos “diversos grupos étnicos ... não é mantida entre eles uma rígida separação” (IBGE, 1970). Mas será que se pode delegar a complexidade de análise das configurações da cor na sociedade brasileira exclusivamente às suas particularidades ao nível do próprio objeto de estudo? Outros autores apontam para os “problemas subjacentes a esta variável e que vão desde a denominação das categorias ... passando pelos problemas de coleta desses dados até a sua interpretação e utilização” (Pahim Pinto, 1996). Do nosso ponto de vista, não é na percepção nuançada dos descendentes das “raças” de cor de cobre, caucásica e etíope, no dizer de von Martius, onde se instalam as suas dificuldades de estudo. Pensamos que a 10 complexidade anotada reside mais na forma como as ditas configurações são conceituadas, tanto no interior da prática acadêmica como na sua utilização corrente.


Os recenseamentos e pesquisas estatísticas são consideradas como ferramentas que os estados modernos utilizam para determinar o tamanho e as características de sua população. Entretanto, “mais que uma operação de contagem, o recenseamento codifica, através de nomenclaturas que ele propõe, a estratificação da sociedade” (Simon, 1997). A conceituação e a representação socialmente organizadas das diversas divisões do mundo social, entre elas, a da segmentação por cor, se vê assim refletida nessa nomenclatura, revelando o sentido de que “categorizar é um ato de conhecimento e de reconhecimento” (Bertheleu, 1977). A categorização estatística condensa a experiência dos atores sociais contribuindo para a formalização do mundo social, situando-se na interseção do cognitivo e do imaginário nacionais.


Com a finalidade de levantar informações que permitissem avaliar a forma como é classificada a população segundo as atribuições de cor nas pesquisas do IBGE e de maneira semelhante ao feito com a PNAD em 1976, a Pesquisa Mensal de Emprego, PME, de julho de 1998, aplicada em 6 Regiões Metropolitanas 1 , foi acrescentada de um suplemento com quatro quesitos indagando sobre cor e origem dos entrevistados. O presente estudo se propõe, a partir destas informações, a esmiuçar o arcabouço das denominações da cor utilizadas pela população brasileira em relação às categorias aplicadas nas pesquisas da Instituição para investigar estas características, reconstruir a sua origem etimológica, especificar os seus usos correntes e delimitar as suas significações regionais. Como complemento, são analisadas as respostas à pergunta sobre a origem dos entrevistados, tentando avaliar a sua possível contribuição para melhor entender a problemática em questão.

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