TACGGNARRATIVAS DA PELETCGAA

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Não parece o quê comigo? As mulheres sabem que o filho que nos sai do ventre não precisa ser necessariamente da nossa cor e, mesmo assim, continuam sendo nossos filhos. Meu pai é alemão, então eu não percebia que eu não me parecia com a minha mãe. Ela é paraibana. Eu a escutava dizer como era tratada por não ser identificada imediatamente comigo, porque o tom da pele dela não era o meu. Você é a babá? Ela respondia: eu sou só a garagem. Porque ela gostava de ser desaforada. A grande vingança dos genes foi que minha filha nasceu parecida com a minha mãe.

Minha filha nasceu muito clarinha, muito branquinha. Aos poucos ela foi escurecendo, naturalmente. Consegui trazer o meu tom de pele para a pele dela. Depois, fui passando o conceito da nossa cor para ela, o que isso representa, o que significa ser negra. E nós somos negras.

Na minha família cada filho é um tom de negro, são várias gradações de negrura. Eu nasci bem pretinha, mas minha irmã foi aquela recém-nascida que causava momentos constrangedores, porque as pessoas perguntavam se realmente ela era filha do nosso pai, que é um homem negro. Eu entendi, de um modo muito ruim, que os tons de pele vão se transformando e que pessoas negras não são, necessariamente, negras quando nascem.

Como é que você vive em uma sociedade sem perceber que para tantos outros essa é uma questão que os sufoca tanto? Estamos dentro de um sistema de racismo, que muitas vezes desconhecemos e sequer refletimos sobre ele. E aí, o estranhamento foi, depois, descobrir que eu não era branca, que eu era rosa. 

A cor da minha pele é uma verdade sobre mim. É minha autenticação no mundo. Me chamaram de parda nos documentos, mas eu sou negra.

Quando eu era criança eu não sabia que eu era negra, escondiam isso de mim.

Nos documentos eu sou parda. Quando comecei a trabalhar na cultura, os negros não achavam que eu era negra, os brancos não achavam que eu branca. Minha opção via IBGE era ser parda.

Há uma geração que acha que ser chamado de pardo é importante. Mano Brown diz que ele é pardo. “Pele parda e eu sou funk.” Eu sou filha de mãe branca e de pai, segundo o Mano Brown, pardo. Do lado do meu pai, meu avô era negro e minha avó, italiana. Do lado da minha mãe, minha avó era índia e meu avô nordestino. Eu sou o que resultou dessa mistura toda. Muitas vezes se desconsidera uma parcela de pessoas que não são brancas nem são negras. São o quê? E, eu, sou o quê? Eu me sinto parda.

Quando batem à minha porta para pedir ou vender alguma coisa e, quando atendo, me perguntam: “A patroa está em casa?” eu olho bem no fundo dos olhos da pessoa e respondo: “Perdeu a chance de falar com ela”.

Queríamos que nossa filha pudesse ir à escola com o cabelo black dela. Um dia ela foi, mas quando passou pelo primeiro portão a inspetora perguntou: “Hoje não deu tempo de pentear o cabelo?” Ela respondeu: “Não, hoje eu quis vir com meu cabelo assim, natural”. Percebemos que esse problema ia nos perseguir e que era preciso enfrentá-lo.

Quando eu penso na cor da minha pele, eu tenho muitas lembranças. Na infância, na escola, a professora apontava para mim assim: “Aquela negrinha...”

Quando eu era criança eu achava que só as pessoas negras faziam cocô.

Sou mãe de gêmeos. Ele tem cabelo cacheado, ela tem cabelo crespo. O tom da pele dela é mais claro. Mas ela sempre sofreu mais por causa do cabelo. Ela era proibida de brincar porque ela era diferente das amigas. Não processamos a escola, mas pedimos que eles fizessem ações que considerassem as questões raciais. Foi um processo que fomos construindo juntos, para que entendessem e respeitassem as diferenças.

Eu não fui ensinada a ficar indignada com a questão racial. Eu fui ensinada a me preocupar com ela e a ser sempre melhor do que todo mundo. Minha avó era uma mulher austera, grandiosa, muito dura, que sofreu muito preconceito. Quando eu falo da minha avó, ela vem! Falo dela e eu elevo aqui meu peito.

O entrevistador marcou um X, de fora a fora, na ficha de trabalho que eu preenchi, olhando bem na minha cara, e já chamou a próxima. Todas as negras eram dispensadas. Aí uma das minhas amigas me contou: “Eles não contratam pessoas negras. Não vão te pegar”. Aquilo, para mim, foi um choque. Ainda dói. Dói muito.

A pele é só um limite. É um limite muito pequeno da sua relação no mundo. Se esse limite precisa ter cor não serão essas, pode ser amarelo, roxo, azul, verde, vermelho, e pode-se encontrar outras camadas de pele ao se perceber o corpo como pouco.

Lá fora vendem há muito tempo caixa de lápis, passando por todos os tons de pele, desde o rosinha até chegar ao marrom mais escuro e ao quase preto. Quando meus filhos chegaram à escola com ela, as mães dos amigos ligaram para saber onde eu tinha conseguido, porque as crianças sempre diziam que o lápis “cor de pele” não era cor da pele deles. Isso foi tão importante. Elas pediram que a escola fizesse um trabalho para identificar os tons de pele de todas as crianças.

A menina que saiu da minha barriga era muito clara [...] filha da miscigenação [...] ela trouxe de volta para minha vida a minha própria cor [...] No contraste entre nós fui me dando conta do mundo em que eu vivia [...] Desde muito pequena eu sempre frequentei lugares onde eu era a única negra. Eu ainda sou a única negra em vários dos lugares que eu frequento.

Minha avó contava que eu perguntava: por que somos pretas? Eu não sabia o que aquilo significava. Hoje, eu, que sou mãe de um menino cujo pai é um homem não-negro, penso todos os dias em educá-lo como uma pessoa negra porque sei o que significa me reconhecer no que eu sou. 

Fui perceber que eu era branca muito depois. Eu não sabia que as pessoas tinham uma cor de pele e, talvez, não ter percebido que eu era branca revelava também o quão tensas são as dinâmicas do racismo estrutural na sociedade.

Ou, talvez, isso tenha sido uma forma, na verdade, de me proteger, porque não queria fazer parte do que significava ser branco, por vergonha das implicações que esse lugar privilegiado nos dá. Então, eu me refugiava em outra cor: eu não sou branca, eu sou rosa. Como se o racismo não pudesse ser imputado a uma inocente pessoa rosa, porque fizemos nada demais, mas aos brancos, sim.

Meu avô, que minha mãe gosta de chamar de mouro, na verdade era um baita de um negão. E ela nunca se conformou com isso. Ela não me deixava ter amigos e namorados negros. Você não vai namorar com esse negrinho. Por quê? Eu gosto dele! Você não vai namorar com ele. E fez um inferno da minha vida. Eu tenho raiva dela por ter feito aquilo comigo. O pai dela era negro. Sim, meu avô era espanhol, mas era negro. E ela nega que é negra. Ela queria que eu passasse tinta nos cabelos para ser loura. Eu sou negra! Eu sou negra, não quero ter cabelo liso. Eu quero ser preta! Eu quero ser parte das pessoas escuras. Eu não quero ser ... branca! As pessoas me veem branca. Mas os trabalhos sobre a cultura negra que eu faço, as coisas pelas quais eu me interesso, ser do candomblé é o que me move, é um grito, é uma luta. E estou nessa luta. Sou negra, só me falta a bendita da melanina. As pessoas têm que ter orgulho do que elas são, de onde elas vêm.

Como o racismo no Brasil é perverso, as pessoas que nascem com pouca melanina e que não são imediatamente identificadas como negras ficam deslocadas. Mas não é só a quantidade de melanina que vai dizer se uma pessoa é negra, ou não.

O que significa? A cor da minha pele traduz quem eu sou. É algo natural, algo meu, não tem um significado mais do que especial. Sou eu e eu sou negra. E é isso.

Eu tenho dificuldade com a designação da cor da minha pele. Qual é a minha cor? Eu venho de uma família que é miscigenada. A minha avó é negra, tem um irmão que é mistura de negro com índio. Meu avô português era apelidado de maroto, que é o cabelo do milho. Somos baianos e na Bahia a paleta de cores é gigantesca. Na Bahia ela não era negra, propriamente. Eu tenho um cabelo fino, grosso, liso que vem do índio que tem na minha família. Não encontro minha classificação no IBGE, mas pro meu pai, minha mãe é mulata fina e eu sou morena assentada. Não se diz mais mulata, sabemos, mas meu pai ainda diz.

E o termo retinto? “Nasceu Macunaíma. Preto retinto filho do medo da noite.” Não gosto, não me soa bem. Senti uma estranheza quando o li pela primeira vez. O problema é que a gente sempre tem que chancelar a cor da pele da pessoa? É preto, negro.

Vovó lavava a calçada todos os dias. “Você já é a negra, já vão falar mal de você. Você não vai também ser a suja, você não vai ser a burra, você não vai ser a mal-educada. Você vai ser melhor em tudo porque você já é negra. Não seja mais nada de ruim além disso. Qualquer outra coisa que você venha a ser tem que ser forte, tem que ser algo de positivo. Pejorativo só o seu tom de pele.” Forte isso, né? Ela foi muito dura nos seus ensinamentos. Ela não me deixava chorar.

Meu marido é negro e é gaúcho, e esse é também seu apelido. As pessoas sempre esperam que venha um homem branco.

Se eu comento que sou professora de dança me dizem: “Então você dança samba”. Não se espera que uma negra seja professora de balé clássico.

Aqui não tem preconceito, me disseram na escola. A “prova” era que a professora de música era chama de “brigadeirinho”.  E ela era uma negra com seu cabelo alisado, bem acomodada para ser aceita naquele espaço.

Naquele tempo as pessoas negras quase não estudavam. Por isso, éramos apenas eu e uma colega no colégio todo [...] Depois, ensinei minhas cinco filhas negras de cabelos crespos que a cor da pele não muda uma pessoa [...] E tenho orgulho de ser negra.

Tive uma tristeza grande depois que eu me formei. Fiz um teste, havia vaga, porém, quando eu passei e achei que ia assumir me disseram que não precisavam de mim porque uma outra moça que havia feito o processo de seleção também é que ficaria com a vaga. Ela era loira. No dia a dia, isso vai cansando a gente.

Hoje em dia ser negra para mim é muito maior do que qualquer outra coisa. Acima de tudo eu sou uma mulher negra e isso me dá força para ser o que quer que eu quiser ser. Eu falo para minhas meninas que elas podem ser o que quiserem. Porque é a ancestralidade nos dá forças. Há uma legião de mulheres negras falando junto comigo.